terça-feira, 6 de abril de 2010

Maconha: uso, abuso e desenvolvimento de psicose.

Maconha é a droga mais utilizada em diversos países do mundo. Segundo diversos autores, a percepção do risco associado ao uso de maconha vem caindo e diversas iniciativas para descriminalização e redução de danos do consumo de maconha têm sido conduzidas – para informações, visite www.growroom.net.

Há indícios que o uso de maconha pode trazer problemas de saúde como disforia, desordens comportamentais, dependência, déficit no desenvolvimento cognitivo, desordens psicológicas e comportamento anti-social, embora não esteja totalmente comprovados esta relação quanto ao uso da maconha ou a fatores psico-sociais associados ao consumo, inclusive a sua marginalização.

Um dos principais efeitos associados ao consumo de maconha é o desenvolvimento de sintomas de esquizofrenia. Embora este risco venha sendo reportado, ainda há muita controvérsia a cerca da confiabilidade das pesquisas conduzidas. O modelo de estudo reconhecido como mais confiável em relação à previsão do risco de desenvolvimento de efeitos colaterais é o estudo de coorte, onde uma amostra da população é avaliada quanto ao seus hábitos de consumo, sintomas prévios de esquizofrenia e acompanhado por alguns anos para que uma nova avaliação possa ser conduzida após alguns membros desta população ter sido exposto ao uso da maconha.

Para quem não sabe ainda, o princípio ativo da maconha - delta-9-tetrahidrocanabinol (THC) – está associado ao desenvolvimento de sintomas semelhantes aos da esquizofrenia quando administrado em voluntários saudáveis. Este efeito tem sido associado ao aumento da liberação de dopamina no cérebro. Esta observação, assim como o aumento do número de receptores para THC no cérebro de pacientes com esquizofrenia, tem levado ao estudo da associação entre consumo de maconha e o desenvolvimento da doença.


Fazendo um levantamento na literatura – como é a proposta deste Blog – achei alguns artigos que demonstram trabalhos do tipo coorte estudando o tema. Assim segue:

Andreasson e colaboradores e Zammit e colaboradores realizaram estudos com amostra de mais de 50.000 indivíduos na suécia e observaram que a probabilidade média (odds ratio) de se desenvolver sintomas de esquizofrenia em usuários de maconha eram 3 vezes maior do que em não usuários quando os mesmos faziam este consumo até os 25 anos de idade. Entre os indivíduos que fizeram uso de maconha mais de 50 vezes durante a vida, esta chance passava a ser 6 vezes maior. A mesma avaliação feita com os mesmos indivíduos aos 35 anos, mostrou uma chance um pouco diminuída, de 2,2 vezes maior em relação a não usuários.

Em estudo realizado na Holanda com 4.848 indivíduos, van Os e colaboradores demonstrou que os riscos de desenvolvimento de esquizofrenia em usuários de maconha aumentam 2,76 vezes em relação a não usuários. O impressionante é que se são avaliados os riscos entre pacientes que já apresentavam aos 11 anos de idade sintomas relacionados a esquizofrenia, esta probabilidade média passava a ser 24,17 vezes maior do que não usuários.

Em Monique, Enquet e colaboradores demonstraram em um estudo com 2.434 indivíduos que o risco de desenvolvimento de sintomas de esquizofrenia entre os que fizeram uso de maconha por mais de cinco vezes era 2 vezes maior do que em não usuários. Este trabalho também estabelece uma relação dose dependente, de modo que entre os que fazem uso menos de uma vez ao mês, uma a duas vezes por semana e todos os dias, apresentam risco aumentado em 1,23; 4,9 e 6,8 vezes, respectivamente.

Fergusson e colaboradores e Arseneault e colaboradores, em estudos realizados na Nova Zelândia com mais de mil indivíduos cada, determinaram um risco aumentado em 4,5 vezes em usuários de até 15 anos de idade e de 1,65 vezes em usuários de até 18 anos de idade. Neste mesmo trabalho, o risco demonstrado quando o indivíduo já apresentava sinais de esquizofrenia aos 9 anos de idade foi 15,97 vezes maior que em não usuários. Adicionalmente Stefanis e colaboradores, em estudo realizado na Grécia com 11.048 indivíduos demonstrou que o risco de desenvolvimento de esquizofrenia na vida adulta é muito maior quando os usuários fizeram uso antes dos 15 anos em relação aos que fizeram uso após os 16.

Com o apanhado de resultados descritos, fiz este gráfico que correlaciona risco comparativo do usuário em relação a idade média de consumo entre indivíduos que apresentavam ou não sintomas prévios de esquizofrenia:


Fica claro que quanto mais jovem o usuário, maior o risco de desenvolvimento de esquizofrenia, demonstrando o perigo do uso de maconha, assim como de diversas outras drogas, inclusive as lícitas, na adolescência.

Outro fator que deve ser levado em consideração é o aumento acentuado do risco em pacientes com sintomas prévios de esquizofrenia. Este aumento tem sido demonstrado também no caso de pacientes portadores de outros distúrbios psicológicos.

Diversos trabalhos estudam e preconizam a possibilidade de uso medicinal da maconha. Este apanhado de resultados, embora pequeno frente à vasta literatura disponível, serve para alertar que uma avaliação psicológica criteriosa deve ser conduzida antes de incentivar um paciente a utilizar maconha com fins terapêuticos. Além disso, adolescentes, principalmente até os 16 anos devem ser desencorajados de usar qualquer droga, inclusive maconha. Qualquer uso medicinal deve sempre considerar a relação custo/benefício do tratamento.

Quanto ao usuário eletivo e recreativo, embora o risco de desenvolvimento de esquizofrenia seja cerca de duas a três vezes maior que em não usuários, convém lembrar que a incidência de esquizofrenia na população mundial gira em torno de 1%. Faça as suas contas.

 

REFERÊNCIAS

C. Roncero, F. Collazos, S. Valero, M. Casas. Cannabis consumption and development of psychosis: state of the art. Actas Esp Psiquiatr 2007;35(3):182-189

Tanda G, Pontieri FE, Di Chiara G. Cannabinoid and heroin activation of mesolimbic dopamine transmission by a common mu1 pioid receptor mechanism. Science 1997;27;276:2048-50.

Dean B, Sundram S, Bradbury R, Scarr E, Copolov D. Studies on [3H]CP-55940 binding in the human central nervous system: regional specific changes in density of cannabinoid-1 receptors associated with schizophrenia and cannabis use. Neuroscience 2001;103:9-15.

Andreasson S, Allebeck P, Engstrom A, Rydberg U. Cannabis and schizophrenia. A longitudinal study of Swedish conscripts. Lancet 1987;26;2:1483-6.

Zammit S, Allebeck P, Andreasson S, Lundberg I, Lewis G. Self reported cannabis use as a risk factor for schizophrenia in Swedish conscripts of 1969: historical cohort study. BMJ 2002; 23;325:1183-8.

van Os J, Bak M, Hanssen M, Bijl RV, de Graaf R, Verdoux H. Cannabis use and psychosis: a longitudinal population-based study. Am J Epidemiol 2002; 15;156:319-27.

Henquet C, Krabbendam L, Spauwen J, Kaplan C, Lieb R, Wittchen HU, et al. Prospective cohort study of cannabis use, predisposition for psychosis, and psychotic symptoms in young people. BMJ 2005;330:11-4.

Fergusson DM, Horwood LJ, Swain-Campbell NR. Cannabis dependence and psychotic symptoms in young people. Psychol Med 2003;33:15-21.

Arseneault L, Cannon M, Poulton R, Murray R, Caspi A, Moffitt TE. Cannabis use in adolescence and risk for adult psychosis: longitudinal prospective study. BMJ 2002;325(7374):1212-3.

Stefanis NC, Delespaul P, Henquet C, Bakoula C, Stefanis CN, van Os J. Early adolescent cannabis exposure and positive and negative dimensions of psychosis. Addiction 2004;99:1333-41.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Porque Liberais e Ateus São Mais Inteligentes.

De gustibus non est disputandum. Satoshi Kanazawa, economista, pesquisador da London School of Echonomics and Political Science inicia seu artigo publicado no periódico Social Psychology Quarterly com esta citação logo no primeiro parágrafo. Este artigo – que classifico como leitura fundamental – apresenta e comprova empiricamente uma teoria chamada pelo autor de Hipótese de Interação QI-Savana. Para entender de que se trata, precisamos saber primeiro o que é Princípio Savana.

O Princípio Savana prevê que as adaptações físicas e psicológicas do ser humano são desenhadas segundo os ambientes de adaptação, não necessariamente sendo o ambiente atual. O cérebro humano, por exemplo, teria dificuldade em lidar com situações que não existiram no seu ambiente de adaptação ancestral. Vários exemplos são citados pelo autor comprovando o Efeito Savana, postulado e estudado por diversos outros autores.

A inteligência do ser humano pode ser medida de várias formas, denotando diferentes formas de “inteligência”. A chamada Inteligência Geral - medida, entre outros parâmetros, pelo Quociente de Inteligência (QI) – influencia de maneira indiscriminada a capacidade de lidar com situações evolutivamente novas ou conhecidas. Por isso, o autor apresenta a Hipótese de Interação Savana-QI que propõe que indivíduos mais inteligentes são mais aptos a abraçar e lidar com situações que não fazem parte do ambiente de evolução ancestral. Segundo esta teoria, pessoas mais inteligentes conseguem lidar com e aceitar situações, idéias e conceitos modernos, que não fazem parte da herança ancestral e dos saberes evolutivos do homem.

Para testar sua hipótese, o autor apresenta o resultado de análises de correlação entre QI e a preferência comportamental em adolescentes e adultos, em relação a três comportamentos: liberalismo versus conservadorismo, ateísmo versus religiosidade e monogamia versus poligamia. Os dados foram obtidos do National Longitudinal Study of Adolescent Health e do General Social Survey, ambos programas estadunidenses.

Liberalismo versus conservadorismo foi escolhido porque o ser humano foi desenhado pela evolução para ser altruísta somente com indivíduos geneticamente relacionados e não com um número indefinido de completos estranhos. Isto ocorre porque os nossos ancestrais viviam em comunidades pequenas onde quase todos eram geneticamente relacionados. Noções complexas de sociedade e humanidade em um mundo globalizado, superação de barreiras étnicas e culturais para integração dos povos, típicos do pensamento liberal é uma situação nova na evolução humana.

Ateísmo versus religiosidade, porque a crença em uma força imaterial superior faz parte do processo evolutivo humano para buscar causas para os acontecimentos da natureza. A falta de uma causa compreensível fez o homem desenvolver a ideia de Deus. O ateísmo é um conceito relativamente novo e sem participação anterior na formação evolutiva da psicologia humana.

Monogamia versus poligamia, porque evolutivamente a poligamia fazia parte de uma estratégia de competição entre machos pela disseminação de seus genes. A monogamia, imposta socialmente ao homem nos dias de hoje, é uma situação evolutivamente nova na humanidade.

A Hipótese de Interação Savana-QI postula então que pessoas mais inteligentes, tendo a capacidade maior de lidar com situações evolutivamente novas para a humanidade, seria mais propensas a entender e adotar ideias e conceitos liberais, ateístas e monogâmicos. Este último, no caso dos homens mas não no das mulheres, pois monogamia não é uma novidade evolutiva para mulheres, desde que as nossas ancestrais precisavam ser monoândricas para garantir a proteção própria e da prole.

Os resultados mostram que há uma intensa correlação positiva entre QI e a caracterização da pessoa como liberal e negativas entre QI e religiosidade e QI e comportamento poligâmico em homens. A figura abaixo mostra dois gráficos que denotam bem claramente esta relação:


A conclusão do trabalho é bem clara no seu título. Em última análise, podemos dizer que ateus, liberais e homens monogâmicos são mais inteligentes que conservadores, religiosos e homens poligâmicos, respectivamente.

Em particular, como eu me considero bastante liberal e sou totalmente monogâmico, me dou ao luxo de ser um pouco religiosos. Principalmente porque minha religião não se encaixa em nenhuma listada no artigo, mas isso é assunto para outro post..

REFERÊNCIA:

KANAZAWA, S. 2010. Why Liberals and Atheists Are More Intelligent. Soc. Pshycol. Quaterly 73, 1:33-57.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Biotecnologia da tatuagem.

   Tatuagens têm sido utilizadas por diversos povos desde os primórdios da humanidade, desde esquimós da Islândia até Maoris e polinésios. A tecnologia da pigmentação da pele evoluiu bastante, principalmente em relação aos meios de impregnação, utilizando máquinas modernas e variações de frequência a profundidade de penetração da agulha para atingir diferentes efeitos e durações a depender do tipo de pele a ser tatuada.

   Pouca informação ainda existe sobre como estes pigmentos interagem com nosso organismo, como são metabolizados e qual o real impacto toxicológico deles. No entanto, fazendo uma busca na literatura corrente - como pressupõe a motivação deste blog - achei algumas informações que explicam as afirmações, a princípio descabidas, que ouvimos nos estúdios de tatuagem, como: "depois de um tempo de seção a pele rejeita e cospe a tinta" e etc.

   As tintas para tatuagem são compostas de pigmentos insolúveis em água veiculados com dióxido de titânio que são injetados na pele pelas agulhas. Por serem insolúveis, estes componentes permanecem em estado sólido na derme - camada profunda da pele - não sendo removidos pelos nossos sistemas de defesa. Originalmente, estes pigmentos consistiam de misturas de carvão - no caso da tinta preta - ou de sais inorgânicos principalmente de metais pesados como mercúrio, prata e chumbo - no caso das coloridas. A descoberta da toxicidade destes compostos fez a indústria de tintas buscar pigmentos orgânicos que pudessem ser utilizados com mesmo resultado. Embora não haja estudos completos sobre o toxicidade desses pigmentos, o FDA não aprova o uso de nenhum deles e a ANVISA deu um prazo de até fevereiro de 2010 para que a indústrias façam o registro de suas tintas. Abaixo alguns dos pigmentos orgânicos utilizados nas tintas modernas:


   A partir do superior esquerdo, em sentido horário, pigmentos azul, vermelho, verde e amarelo.

   A localização do pigmento depende da idade da tatuagem. Durante os primeiros 15 dias após o procedimento, os pigmentos se concentram na interface derme-epiderme, abaixo da camada de queratinização/cicatrização. Parte do pigmento é perdido nestes processos. A recomendação de não arrancar a famosa casquinha existe pois a retirada da mesma pode remover fisicamente o pigmento, dilacerando as camadas da derme abaixo da cicatrização (Lea & Pawlowski, 1987). Quando a tatuagem sara - o que leva cerca de quinze dias - a maior parte do pigmento se concentra nas várias camadas da derme (Sperry, 1992). Abaixo um corte histológico mostrando a localização do pigmento vermelho na derme:


   Os pigmentos insolúveis permanecem parte no interstício - nome dado ao meio externo às células - recobrindo os fibroblastos ou, ainda, endocitados por macrófagos e encapsulados em vacúolos intracelulares. As partículas de pigmento que permanecem na derme causam diminuição da produção de colágeno, o que pode estar associado a diversas complicações dermatológicas potencialmente causadas pela tatuagem (Falconi e cols., 2009). Além de encapsular as partículas partículas de pigmento, os macrófagos têm a capacidade de metabolizá-los através do sistema citocromo P450 - responsável pelo metabolismos dos chamados xeno-compostos, substâncias estranhas e potencialmente danosas ao organismo - transformando-os em substâncias solúveis que podem ser eliminadas via circulação linfática (Cui e cols., 2005; Baron e cols., 1998). Parece claro então que quanto maior a proporção de pigmento endocitado por macrófagos, maior será a perda de coloração por metabolização do pigmento, já que parte deste será eliminado. 

   A figura abaixo mostra um foto de microscopia eletrônica com fibroblastos em cultura com a superfície impregnada com o pigmento de tatuagem:

   A escarificação da pele pela agulha, gera uma intensa reação inflamatória local, com repercussões sistêmicas, que leva ao recrutamento de macrófagos à derme sendo tatuada. Quanto mais longa a duração da seção de tatuagem, maior a reação inflamatória e mais macrófagos serão recrutados para o local. Daí a afirmação dos tatuadores de que a pele se torna "resistente" e ainda que "cospe" a tinta, deixando partes descoloridas no desenho. O ideal é que cada seção não dure mais do que 2 horas para evitar perda de pigmentação.

   Infelizmente, poucos estudos têm sido feito com interesse de melhorar a qualidade dos pigmentos, desenhos ou técnicas de tatuagem, mais sim na melhora dos procedimentos de remoção cirúrgica ou a laser das tatuagens - como é o caso dos que foram citados aqui. De qualquer forma, a interação tecido-pigmento pode ser um campo interessante de pesquisa biotecnológica para melhoria dos pigmentos visto que a procura por esta arte tem sido crescente - mesmo depois de milênios - em todo o mundo.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Super Freakonomics: maior, melhor, mais surpreendente.


   Após recomendar a leitura do livro Freakonomics em postagem anterior, chamo atenção para esta continuação primorosa: Super Freakonomics. Nesta nova obra, os autores parecem ter melhorado a fórmula da escrita além de trazerem um número ainda maior de esquisitices desvendadas pela análise econométrica dos dados mais diversos. Informações como: "ir ao serviço médico de emergência causa mais mortes que não ir..." e "a resposta exageradamente medrosa aos atos terroristas podem trazer mais prejuízo - econômico e pessoal - que o próprio ato em si..." são pérolas da Microeconomia que, mais uma vez, derrubam o pernicioso senso comum.

   Tenho o hábito de ler na cama antes de dormir. No entanto, com Super Freakonomics tive que mudar este hábito pois além de não conseguir parar, passo vários minutos  após a leitura digerindo as informações. Aliás, a única queixa que tenho do livro: tirar meu sono. Mas a que se propõem iniciativas que visam derrubar o senso comum além de fazer as pessoas acordarem. Neste propósito, Super Freakonomics cumpre seu objetivo.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Milho transgênico: Monsanto em cheque!

  Está assolando a internet a notícia da publicação de um estudo que mostra efeitos tóxicos de milhos geneticamente modificados (GM) da Monsanto. Eis o link do artigo original. Este artigo foi publicado no dia 10 de dezembro no periódico especializado International Journal of Biological Sciences e trata de uma nova análise estatística de resultados obtidos pela própria Monsanto. Os dados originais não foram publicados e os autores os obtiveram graças a ações judiciais movidas pela União Européia e pelo Green Peace contra a Monsanto que a obrigaram a revelarem os dados brutos de suas pesquisas.

   O trabalho original, conduzido pela Monsanto foi feito com 1.200 ratos alimentados com três variedades geneticamente modificadas de milho - NK 603, MON 810 e MON 863 - por 90 dias. NK 603 apresenta resistência ao inseticida glifosato (Roundup), produzido pela Monsanto, enquanto MON 810 e MON 863 produzem uma proteína com efeito inseticida.

   Apesar deste ser o maior estudo reportando o efeito de alimentos GM em mamíferos já publicado integralmente, surpreende que, apesar do grande número de ratos no estudo, cada amostra diferente consiste de apenas 10 animais. Este pequeno número de indivíduos em cada condição amostral faz com que haja uma enorme incerteza estatística relacionada aos resultados publicados anteriormente pela Monsanto. Os autores deste novo trabalho comentam que os testes realizados pela Monsanto não foram adequados para este número amostral, induzindo uma interpretação errônea dos dados. Segundo os autores, este novo trabalho - isento - faz análises estatísticas mais adequadas ao número amostral e analisa parâmetros negligenciados pela pesquisa original da Monsanto, como variação de efeito nos diferentes sexos, por exemplo.

   No conjunto original de dados, diversos parâmetros deixaram de ser medidos, como marcadores específicos de hepatotoxicidade. Como os dados originais foram produzidos pela Monsanto, os autores deste novo trabalho não souberam informar o motivo destes importantes marcadores não terem sido medidos.

   Esta nova análise sugeriu a ocorrência de lesão hepática e renal associada ao consumo dos três milhos GM da Monsanto, resultado que não havia sido confirmado anteriormente pela análise da Monsanto. Os autores advertem que esta nova análise não é uma "prova da toxicidade" dos milhos GM da Monsanto mas sim um "sinal de toxicidade". Isso porque os dados apresentam diversas falhas a notar: 1, os experimentos foram conduzidos somente uma vez e em somente uma espécie - no caso, o rato; 2, os experimentos foram conduzidos por pouco tempo - 90 dias - eliminando a possibilidade de detecção de doenças de longo desenvolvimento, como câncer; 3, o número reduzido de animais envolvidos em cada condição testada - somente dez - não permite uma análise estatística com alta confiabilidade. Os autores sugerem que trabalhos similares sejam conduzidos por, pelo menos, dois anos e em, pelo menos, três espécies diferentes antes que qualquer alimento GM seja liberado para consumo humano.

   Ainda segundo os autores, os efeitos tóxicos apresentados provavelmente estão relacionados à presença residual dos inseticidas utilizados - Roundup - nos milhos. Além disso, como cada alimento GM é elaborado com metodologia e características genéticas distintas, cada um deve ser testado separadamente e resultados de um alimento GM não podem, de forma alguma, ser extrapolados para outros.

   O milho MON 810 e NK 603 já tiveram sua comercialização liberadas pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança - CTNBio - e devem estar em breve, se já não estão, nas mesas dos brasileiros.

   Ainda é cedo para saber os efeitos deste artigo nas ações da Monsanto na bolsa de Nova Iorque (NYSE) mas o fato é que desde o dia 10 de dezembro, as ações da Monsanto caíram quase 3%, enquanto o NYSEI, índice geral da NYSE, subiu mais de 1%. Veja no gráfico abaixo: 

   Uma defasagem de mais de 4% no período. Vamos aguardar para ver se os efeitos desta nova informação serão tão devastadores assim...


sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Freakonomics: um tapa no senso comum.


   Quando lancei este Blog, propondo unir assuntos como Biotecnologia e análise gráfica para bolsa de valores, muitos - inclusive eu mesmo - acharam temas díspares para serem tratados em conjunto. Na verdade, à época, o único ponto em comum que eu vi nestes dois assuntos era o fato de eu gostar dos dois.

   Depois que li Freakonomics, percebi que estes assuntos são mais relacionados que eu - e a maioria - supunha. Freakonomis significa algo como economia excêntrica, ou excentriconomia. Neste sensacional livro, os autores Steven Levitt e Stephen Dubner trazem à tona, com comentários excelentes e bem humorados, trabalhos em economia que provam - ou "desprovam" - pontos de vistas que aos olhos do senso comum - ou como foi traduzido, da sabedoria convencional - pareciam ser totalmente diferente ou desconhecidos. Foi a partir daí que conheci uma ciência extraordinária chamada Microeconomia. Ao contrário da Macroeconomia, que trata de assuntos monetários, financeiros, comerciais - inflação, juros, comércio exterior, etc - a Microeconomia estuda a relação entre acontecimentos cotidianos de nossas vidas e mundo. Através de ferramentas microeconômicas pode-se, por exemplo, estudar e prever as variações de comportamento de grupos sociais, fenômenos naturais e biológicos, etc. Assim como a Ecologia estuda as relações entre os homens e o meio, a Economia as mede matematicamente.

   Para quem não se tocou ainda, a variação de preços das ações da bolsa de valores é regida pelas relações de compra e venda executadas por seres humanos. Essas relações causam flutuações de preço baseadas em sentimentos, principalmente no medo e na ganância. A Microeconomia é responsável pelos cálculos e parâmetros que preveem este comportamento e, consequentemente, os valores das ações no mercado.

   Igualmente, diversas ferramentas estatísticas primordiais para as ciências biotecnológicas, são também fundamentais nas microeconômicas. A interseção que até eu mesmo buscava entre Biotecnologia e bolsa de valores está na Microeconomia. E graças a este livro, descobri isso. 

   Recomendo fortemente a leitura deste livro que traz estudos muito interessantes e curiosos que reforçam a teoria de que todos - absolutamente todos - agimos por força de incentivos - positivos e negativos. Estudos como os que mostram o que professores americanos e lutadores de Sumô têm em comum; corretores de imóveis e a Klu Klux Klan têm em comum; porque as pessoas trapaceiam - e todo mundo o faz. Enfim, uma leitura excelente pra quem gosta de ciência e quer, por isso mesmo, saber como entender o funcionamento das coisas. Abaixo o senso comum!

sábado, 12 de dezembro de 2009

Comentário na Veja: Papai não é mamãe.

 Semana passada, a revista Veja publicou o artigo "Papai não é mamãe" relatando os empecilhos biológicos para que homens sejam capazes de cuidar dos filhos bebês - http://veja.abril.com.br/091209/papai-nao-mamae-p-100.shtml. Enviei alguns comentários para a seção Carta aos Leitores. Um deles foi publicado - http://veja.abril.com.br/161209/leitor.shtml. Como somente um dos comentários foi publicado - e claro, não foi o mais cientificista deles - resolvi postar aqui uma análise dos artigos que encontrei na área.

...

Comentário publicado

São válidos os princípios evolutivos que a reportagem usa para justificar aptidões de homens e mulheres em relação ao cuidar dos filhos. No entanto, achar que nossa herança ancestral determina essa capacidade e que estamos biologicamente fadados a esse comportamento é fatalismo e retrocesso. O ser humano tem, por séculos, rompido barreiras vestigiais de seus ancestrais. A prova disso são comportamentos impensáveis para nossos avós geológicos, como adotar uma criança sem nenhuma relação genética consigo e investir esforços no tratamento de uma com anomalia genética ou doença incurável. Além disso, afirmações como "os homens não são fisicamente adaptados para cuidar dos filhos com a mesma desenvoltura que as mulheres" denotam uma visão preconceituosa, desde que o trato diário com uma criança - como dar banho e trocar fralda -, se pensado de forma prática, requer somente habilidade manual e conhecimentos mínimos que podem ser adquiridos em qualquer livro ou website especializado.
Vitor Hugo Moreau
Departamento de Biointeração
Universidade Federal da Bahia
Salvador, BA

...

Comentário não publicado:

Instigado pela reportagem, fui buscar informação científica.
Encontrei vários artigos que, em sua maioria, convergiam para o que
alguns consideram referência principal do tema, um artigo publicado
em 2000 no periódico Evolution and Human Behavior, intitulado 
Hormonal correlates of paternal responsiveness in new and expectant 
fathers
dos quais os resultados, no mínimo, põe em cheque as 
opiniões dos especialistas consultados pela Veja. Para não estender 
muito, este trabalho testou os níveis de diversos hormônios em pais
"grávidos" e "recém paridos". Os resultados resumem o seguinte:

1. Há uma queda nos níveis de testosterona nos pais, no entanto esta
queda não está diretamente relacionada à paternidade pois também é
observada em diversos mamíferos formando casal em relação aos
solteiros.

2. Nos períodos logo após o parto, cerca de dez dias depois, o
contato do homem com o bebê - ou com um boneco de pano - causa uma
diminuição do cortisol (hormônio do estresse) e aumento da
testosterona. Essas duas alterações apontam, ao contrário do que fala
a reportagem - para uma sensação de prazer e retomada da
masculinidade durante o trato com o bebê. Os autores comentam que, do
ponto de vista evolutivo, esta testosterona pode ser importante para
que o macho tome a iniciativa de proteger a prole.

Nos outros comentários que fiz, defendi que a reportagem era, no
mínimo, tendenciosa pois na civilização moderna, os efeitos hormonais
são suprimidos pela razão social. No entanto, agora vejo que nem do
ponto de vista hormonal, a teoria levantada pela reportagem se
sustenta e os "especialistas" consultados por Veja não devem nem se
dado ao trabalho de verificar a literatura científica corrente para
não incorrer nos erros do senso comum.

...


 Algumas figuras que não pude enviar no email:

 A figura ao lado mostra de forma esquemática os níveis de testosterona em machos mamíferos baseado em diversos trabalhos. Reparem que os níveis de testosterona dos pais após o nascimento do bebê é menor quando comparado a machos solteiros mas não quando comparados a machos comprometidos sem filhos. Os seja, não é a paternidade que reduz os níveis de testosterona na maioria dos mamíferos machos, mas o envolvimento em um relacionamento estável. Isso é óbvio, segundo os autores, pois a testosterona estimula o macho a buscar parceiras. Uma vez já estando envolvido com uma parceira,não há necessidade deste hormônio estar aumentado.

 Esta figura mostra os níveis de testosterona - Quadro f - em machos no início e final da gestação (early- e late-prenatal) e após 3 ou 7 semanas após o parto (early- e late-postnatal). Este experimento, feito com diversos casais canadenses, mostra que os níveis de testosterona sobem pouco antes do parto, caem logo após o parto e se restabelecem algumas semanas depois. Como a figura do outro artigo, esta mostra não haver diferenças significativas entre homens casados sem ou com filhos.

 Esta próxima figura mostra os níveis de testosterona e cortisol destes mesmos pais canadense antes e depois deles ninarem um boneco de pano enquanto ouviam uma gravação com choro de bebê. Parece estranho mas este é um modelo da chamada resposta Situacional, na qual se avalia a resposta dos pais à necessidade de cuidado do bebê. O experimento mostra que o maior aumento causado pelo estímulo do cuidar ocorre justamente nas primeiras semanas após o parto, quando os níveis de testosterona estão mais baixos, assim como a queda no cortisol.

  Referências:
Storey e cols., 2000. Hormonal correlates of paternal
responsiveness in new and expectant fathers. Evolution and Human
Behavior
, 21:79-95.
Wynne-Edwards, K. E. e Reburn, C. J. 2000. Behavioral endocrinology
of mammalian fatherhood. TREE, 15 (11): 464-468.

domingo, 29 de novembro de 2009

Filhos do carnaval: a natalidade realmente aumenta no Brasil devido aos excessos do carnaval?

 Desde que viemos morar em Salvador, ouço dizerem que o número de bebês nascidos em novembro aumenta devido ao aumento do apetite sexual das pessoas durante o carnaval. Da mesma maneira, já ouvi estórias sobre o São João, muito festejado no nordeste. Bem, como este é um dos objetivos deste blog, resolvi checar se esta informação é realmente verdadeira ou se apenas mais um mito do senso comum.

 Recorri ao riquíssimo site do IBGE com suas estatísticas de tudo que interessa e não interessa a qualquer cidadão brasileiro. Recolhi dados dos nascimentos registrados entre os anos de 2003 e 2008 diferenciados por mês de nascimento, região e estado da federação. Estes dados me deram algumas indicações interessantes.

 A primeira delas é que o suposto aumento da natalidade em novembro - crianças concebidas em fevereiro - não procede, é mito. O gráfico abaixo mostra o percentual de nascimento do ano em relação ao mês de concepção. Nota-se de imediato que fevereiro é um dos mais baixos índices de concepção do ano em todas as regiões do Brasil, desmitificando a ideia dos filhos do carnaval. Outro fato interessante é que os índices de concepção não parecem ser afetados por épocas ou festas típicas regionais mas sim de maneira relativamente homogênea e sazonal em todo o país, com picos em junho e agosto e reduzidos em fevereiro e março.


 Não creio que as festas juninas tampouco sejam responsáveis pelo aumento das concepções em junho pois este comportamento é observado em todo o país, mesmo em regiões onde as festas juninas não são tão comemoradas, como Sul e Sudeste. Da mesma forma, não creio que o frio tenha influência importante - o que causaria o aumento das concepções no inverno - pois regiões onde as estações do ano são menos marcadas apresentariam este efeito diminuído, o que não é o caso. Da mesma forma, a região Sul - mais fria do país - deveria apresentar este efeito de forma mais acentuada, o que não ocorre.

 Se analisarmos o gráfico por unidade da Federação, observamos o mesmo comportamento para todos os estados individualmente, com uma intrigante exceção, o Amapá:


 O Amapá apresenta um pico de concepção nos mês de novembro - bebês nascidos em agosto. Não tenho uma explicação para esta discrepância mas desafio a quem tiver mais conhecimento acerca da cultura Amapaense que tente explicar o que ocorre em novembro nesse estado.

 Analisando o comportamento do índice de concepção nos estados, observamos ainda algo interessante: todos os estados, inclusive o Amapá, apresentam um "dente" no mês de julho. Tendo um comportamento sazonal, parece que observaríamos um máximo de concepção entre junho e agosto, possivelmente no mês de julho. No entanto, algo ocorre em julho que faz com que o número de concepções seja menor do que os meses vizinhos. A princípio, achei que poderia ser efeito das férias escolares, o que faria as crianças permanecerem mais tempo em casa, demandando mais tempo, esforço e dedicação dos pais. Com isso, talvez sobrasse menos tempo para fazer irmãozinhos...

 O IBGE não traz dados sobre o número de irmãos do recém-nascido mas, para resolver esta questão, podemos fazer uma inferência: há maior probabilidade de que mulheres com idade entre 15 e 19 anos na ocasião do parto sejam primíparas - ou seja, não terem filhos anteriores para interferir na concepção - do que mulheres entre 30 e 34 anos. No entanto, ambos os grupos parecem apresentar o "dente" de diminuição de índice de concepção no mês de julho, sugerindo que as férias escolares não devem ser o motivo desta diminuição.


 Aguardo comentários de quem conseguir enxergar mais informação nos dados para que possamos discutir. Por enquanto, desmistificar o senso comum de que os "filhos do carnaval" estão por aí, nascendo em novembro, já foi meu objetivo alcançado desta postagem.

domingo, 15 de novembro de 2009

Alimentos orgânicos e os pingos no is.

 Tenho sido assediado por amigos em relação ao consumo de alimentos orgânicos. Como todos devem saber, os alimentos ditos "orgânicos" são aqueles cultivados "sem uso de substâncias que coloquem em risco a saúde humana e o meio ambiente. Não são utilizados fertilizantes sintéticos solúveis, agrotóxicos e transgênicos". Tudo isso faz desses alimentos uma alternativa saudável em relação à ingestão de resíduos de fertilizantes, herbicidas e defensivos utilizados nas lavouras convencionais.

 Nesse aspecto, considero tudo "ok" - fora o preço dos alimentos orgânicos que muitas vezes se justifica pelo custo aumentado deste tipo de manejo. Minhas objeções começam quando pseudo-especialistas tentam referenciar suas "verdades" em informações incorretas, incompletas ou equivocadas. Isso é o que mais ocorre em campos de atuação onde comportamentos são motivados por ganhos financeiros,  como é o caso do consumo de alimentos orgânicos. Vários sites, inclusive o site oficial do Ministério da Agricultura (www.prefiraorganicos.com.br), dizem que os alimentos orgânicos são mais nutritivos "mais saborosos e com todas as vitaminas e minerais preservados".

 Estas afirmações - juntamente com minha natural aversão à informações mal referenciadas de senso comum - me fizeram envolver-me em uma breve pesquisa no Estado da Arte. Apresento nesta postagem um resumo do que encontrei - em artigos científicos, é claro! - em relação ao teor de micronutrientes - e esclareço que por micronutrientes entende-se vitaminas, minerais, substâncias antioxidantes, etc - de alguns alimentos orgânicos em comparação com os não orgânicos, ditos convencionais.

 1. Tomate. Sem dúvida tomates são os alimentos mais estudados em relação às diferenças nutricionais entre orgânicos e convencionais. Apesar disso, pouquíssimos artigos - encontrei somente 4 de 2004 pra cá na maior base de artigos biomédicos do mundo (www.pubmed.com) - foram publicados. JUROSZEK e colaboradores (2008) estudaram os teores dos antioxidantes betacaroteno, licopeno, ácido ascórbico (vitamina C) e fenólicos, não encontrando diferenças significativas entre tomates orgânicos e convencionais. BARRETT e colaboradores (2007) em estudo semelhante concluíram que o suco de tomates convencionais é mais colorido e rico em ácido ascórbico e fenólicos, enquanto o de tomates orgânicos é mais ácido e contém mais matéria sólida. CARIS-VEYRAT e colaboradores (2006) detectaram um aumento nos níveis de vitamina C, carotenóides e fenólicos na polpa de tomates orgânicos. No entanto, o consumo desses tomates por seres humanos durante 3 semanas (96 g/dia - coisa pra caramba!) não causou nenhum aumento nos níveis sanguíneos dessas substâncias em comparação aos humanos que consumiram tomates convencionais.

2. Maçãs. LAMPERI e colaboradores (2008) estudaram os níveis de antioxidantes - polifenois e vitamina C - na casca e polpa de maçãs de diferentes variedades e cultivares orgânicos e convencionais. Constataram que fatores como região, solo e variedade afetam muito mais intensamente os níveis destas substâncias na parte comestível da maçã do que o tipo de manejo - orgânico ou convencional.

3. Leite. ELLIS e colaboradores (2007) determinaram que leite produzido a partir de rebanhos convencionais contem maior teor de vitamina A do que de rebanhos orgânicos. Os níveis de vitamina E e betacaroteno não se alteraram entre os dois rebanhos.

4. Trigo. ZORB e colaboradores (2006) determinaram as concentrações de 44 metabólitos - açúcares, aminoácidos e ácidos orgânicos -  em grãos de trigo em cultivares orgânicos e convencionais. Os teores de nenhum dos metabólitos se mostrou alterado.

5. Toranja (grapefruit). LESTER e colaboradores (2007) compararam parâmetros de aceitação por consumidores, assim como teores de minerais, vitamina C, licopeno, açúcares, pectina, fenólicos e nitratos entre toranjas orgânicos e convencionais. As convencionais mostraram-se mais coloridos, com menores teores de ácido tartárico e naringina - substâncias que conferem sabor desagradável à fruta - assim como com maior quantidade do antioxidante licopeno.

6. Brócolis. WUNDERLICH e colaboradores (2008) mediram os níveis de vitamina C em brócolis orgânicos e convencionais não encontrando diferenças significativas entre eles.

 Em absolutamente TODOS os artigos, os autores comentam que diferenças muito mais marcantes e significativas são encontradas entre as estações da colheita, variedade do vegetal, tipo de solo e região de plantio.

 Não quero aqui condenar o consumo de alimentos orgânicos. Fora o preço e o termo dado aos mesmo - desde que o que não é "alimento orgânico" passa a ser "alimento inorgânico" e isso não faz o menor sentido - acho que este tipo de alimento deve trazer benefícios - embora eu ainda não tenha pesquisado o assunto - em relação ao uso, descarte e ingesta de agrotóxicos e defensivos agrícolas. Minha intensão é por os pingos no is e esclarecer o que é realmente benefício e o que é mito no consumo dos "orgânicos".

 Consumir "alimentos orgânicos" para diminuir a contaminação de água, ar, solo e humana, tudo bem. Consumir porque é mais nutritivo é senso comum... e mito.


JUROSZEK e cols. J. Agric. Food Chem. 2009, 57, 1188–1194.

BARRET e cols., Journal of Food Science 72, 9, 2007.

LAMPERI e cols. J. Agric. Food Chem. 2008, 56, 6536–6546.

ELLIS e cols. Journal of Dairy Research (2007) 74 484–491.

ZORB e cols. J. Agric. Food Chem. 2006, 54, 8301-8306.

LESTER e cols. J. Agric. Food Chem. 2007, 55, 4474-4480.

WUNDERLICH e cols. Int J Food Sci Nutr. 2008; 59(1):34-45.

sábado, 17 de outubro de 2009

H1N1. Já vi esse filme...

 Semana passada fui com Astria, minha esposa, fazer outra ultrassonografia pra acompanhar o desenvolvimento da Malú. Me chamou atenção que todas as outras vezes que fomos à clínica, a radiologista, que está grávida, usava máscara. Até aí, tudo ok; profissional de saúde, atendendo um monte de pacientes por dia, grávida... nada mais normal que se prevenir da terrível H1N1!!!!!!!! A assistente, como é praxe das assistentes de médicos, chegou a ser agressiva - Limpa a mão com gel! - apontando para o dispensador de sabão com "gel antisséptico" que agora virou moda. Desta vez ela não usava mais a máscara... A dúvida me veio à mente: porque desta última vez ela não usava máscara? Ela continuava grávida, continuava atendendo vários pacientes... Então, me toquei do que mudou. O Jornal Nacional parou de anunciar os boletins de novos casos e mortes por H1N1 diariamente. É verdade, vocês também repararam? O que houve? A doença parou de matar? Descobriram uma cura milagrosa? Não, a notícia foi outra: "Ministério da Saúde diz que Tamiflu chegará às farmácias (Folha UOL, 3 de setembro de 2009) O laboratório Roche, responsável pela produção do Tamiflu, usado no combate à gripe A, poderá distribuir o medicamento a farmácias e drogarias do país. A informação foi divulgada nesta quinta-feira pelo diretor de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde, Eduardo Hage". Muita coisa se explica.
Este ano, foram notificadas 899 mortes por gripe H1N1 no Brasil. Neste mesmo período, mais de 3 mil pessoas morreram de tuberculose. Além disso, embora não haja dados concretos, possivelmente porque a Roche não tinha interesse, uma busca que fiz por artigos em pesquisas epidemiológicas nas décadas de 80 e 90 indicou que o subtipo H1N1 sempre pareceu ser muito comum entre as viroses respiratórias diagnosticadas no país. Arrisco a dizer que, se fosse investigado, o número de óbitos nos anos anteriores não seriam muito diferentes do de 2009.
Nos Estados Unidos, o Relenza, da Glaxo Smithkline, disputa o mercado de “antiflus” com o Tamiflu. Analisando o balanço das ações da GSK na NYSE, a bolsa de Nova Iorque, vemos o efeito desses boatos a curtíssimo e curto prazo. No dia 24 de abril de 2009, o governo americano anunciou a aquisição de mais de 12 milhões de doses de antigripais, incluindo o Relenza (Market Watch). Na segunda-feira seguinte, as ações da GSK saltaram 7,55% na bolsa americana. Esta é uma alta considerada astronômica para a BOVESPA, quanto mais para a NYSE. Mesmo havendo reequilíbrio de preços, em um dia de negócios destes, investidores com informação privilegiadas faturam milhões de dólares.

O Tamiflu é uma concessão da Gilead Science para a Roche. Estas duas empresas também vêm se beneficiando com a gripe suína da mesma forma que ocorreu em 2004-2005 com a gripe aviária. O efeito desta nova campanha nas cotações da Roche não são tão claros -provavelmente por conta da cautela do mercado pela crise recente - embora os lucros com contratos governamentais e licenciamento em vários países sejam muito grandes. No entanto, esta mesma estratégia rendeu uma valorização meteórica naquela época se compararmos a cotação das ações da Roche com o NYSEI, o IBOV deles:

Assim como no Brasil, onde nem liberadas para venda elas eram, estas drogas estavam em declínio nos EUA, com redução de produção pelos fabricantes. Pelo menos até os lobistas espalhadores de boatos entrarem em ação.
Não sou a favor destas teorias de conspiração, mas acho que temos que ter cuidado antes de entrar em pânico por conta de novas “epidemanias” anunciadas pela imprensa leiga...


http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u619011.shtml
http://www.marketwatch.com/story/government-releases-swine-flu-treatment