sábado, 28 de março de 2015
Nós não viemos do macaco!
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
O fantasma do glúten. Ou do "gluten-free".
Temos visto diversas celebridades se vangloriando de ter uma alimentação livre de glúten. Pessoas dizendo que glúten é tão perigoso que o escrito "contém glúten" deve vir escrito em todos os alimentos. Um texto hospedados no site do Senado Federal chega ao absurdo:
...o glúten transforma-se em uma espécie de cola grudando nas paredes intestinais. Com o passar do tempo, provoca saturação do aparelho digestivo, aumento da gordura na região do abdome, dores articulares, alergias cutâneas e depressão.
Absurdo!
Glúten é um constituinte do trigo formado principalmente por proteínas. Pode ser obtido pela lavagem da farinha para retirada do amido. Além de proteínas, o glúten contém amido e cerca de 10% de lipídios.
Algumas pessoas - cerca de 1% da população nos E.U.A.N. - desenvolvem uma alergia à porção protéica de glúten que leva à inflamação da mucosa intestinal, resultando em má absorção de nutrientes e uma série de sintomas intestinais conhecidos como Doença Celíaca (coeliac disease). Esta condição é grave e os portadores devem ser alertados quanto à presença de glúten nos alimentos industrializados. Daí o aviso nas embalagens.
O problema reside num modismo recente que, por conta da doença celíaca, trata o glúten como veneno. Pessoas que não são portadoras desta doença fazem dietas gluten-free baseadas somente em opiniões equivocadas ou mal intencionadas divulgadas principalmente pela internet. Não há evidências de que pessoas que não sejam portadoras de doença celíaca apresentem qualquer problema ao ingerirem glúten.
Caminero e colaboradores (Europian Journal of Nutrition, 2011) mostram que, pelo contrário, quanto mais glúten as pessoas ingerem maior é a produção de uma enzima responsável pela digestão desse glúten por bactérias da microbiota intestinal normal dessas pessoas. Essa enzima, a glutinase tem maior atividade quanto maior for a ingesta de glúten, indicando que nossa microbiota intestinal tem condições de lidar normalmente com o glúten ingerido, mesmo em quantidades muito maiores do que as normalmente consumidas por um indivíduo normal.
Na verdade, toda proteína ingerida pelo homem é digerida incompletamente e acaba sendo liberada nas fezes, inclusive a tão bem tolerada, clara de ovo.
Existe, sim, problema no modismo do gluten-free. Katy Steinmetz (2011) refere um alerta feito por pesquisadores e médicos norte-americanos pela revista Time - sim, a Time é indexada pelo PubMed - em relação ao modismo do gluten-free. Segundo eles, a maioria das pessoas que fazem uma dieta gluten-free não são portadores de doença celíaca e o selo "gluten-free" tem se tornado uma fonte de lucro das indústrias alimentícias. Segundo o autor, por se tratar de um modismo, o selo "gluten-free" tem sido usado inapropriadamente como estratégia de venda. Ele cita um caso onde um fabricante imprimiu o aviso "gluten-free" em seu pão feito com trigo e causou a morte de diversas pessoas que eram realmente portadoras de doença celíaca, sendo condenado a 11 anos de prisão.
Enfim, não há indícios que possam embasar uma dieta livre de glúten por pessoas não portadoras de doença celíaca. Pelo contrário, o modismo ignorante pode vir até a causar prejuízos para quem realmente sofre desta grave condição.
Referências:
Caminero e cols. 2011. Eur J Nutr. no prelo. http://dx.doi.org/10.1007/s00394-011-0214-3
Steinmetz K. 2011. Time. 177(21):64.
sábado, 30 de julho de 2011
Serotonina e a alegria do verão.
Em uma postagem anterior, mostrei alguns dados históricos de temperaturas máximas e mínimas no Rio de Janeiro e em Salvador. Nos comentários, uma amiga sugeriu que eu buscasse alguma correlação entre o humor das pessoas em locais e estações mais ensolaradas. Pois bem.
Existem trabalhos demonstrando que o humor das pessoas muda durante o ano em função da luminosidade. As pessoas se sentem mais felizes durantes as épocas mais ensolaradas do ano. Variações de humor já foram associadas a secreção do hormônio serotonina. Vários trabalhos demonstram uma correlação relativamente forte entre os níveis cerebrais de serotonina e a luminosidade média da estação, assim como melhora de humor nos dias mais ensolarados. Abaixo um gráfico de um artigo que, embora antigo, é um clássico da literatura na área:

Como mostrado no gráfico, os níveis de serotonina medidos em 18 indivíduos é significativamente maior nos meses de verão em relação aos de inverno.
Selecionei o artigo que segue, onde é mostrado a possível razão deste aumento sazonal de serotonina. Os autores mediram os níveis de uma proteína neuronal responsável pela retirada de serotonina das sinapses neuronais. As sinapses são as conexões químicas entre os neurônios e é a forma como eles se comunicam e passam adiante as informações que recebem. Quanto mais serotonina nas sinapses, mais sinais de "felicidade" são transmitidos entre os neurônios. Uma proteína chamada de Transportador de Serotonina é a responsável por esta retirada, levando a serotonina para sua destruição metabólica.
Pois bem, o gráfico abaixo mostra uma correlação entre os níveis deste Transportador de Serotonina e a luminosidade média dos meses em que a medida foi feita em várias regiões do cérebro de 88 indivíduos saudáveis:

Como visto, nos meses onde há picos de luminosidade, representada pelo sombreado cinza - junho, julho e agosto - que coincidem com o verão em Toronto, onde o estudo foi feito, há também um decréscimo da produção do Transportador de Serotonina - representado pelas bolas com barras de erro - o que faz com que mais serotonina fique disponível nas sinapses neuronais. Desta forma, as alterações de humor relacionadas com a luminosidade e consequentemente com as estações do ano são devidas as alterações nas quantidades de serotonina disponíveis e, mais ainda, a diminuição da proteína neuronal responsável pela retirada de serotonina das sinapses.
Não encontrei trabalhos relacionando os níveis de serotonina em indivíduos que vivem em regiões mais ensolaradas em comparação com que os que vivem em regiões mais escuras mas a partir desses resultados, podemos tirar certas conclusões.
Referências:
Sarrias MJ, Artigas F, Martinez E, Gelpi E. Seasonal changes of plasma serotonin and related parameters: correlation with environmental measures. Biol Psychiatry. 1989;26(7):695-706.
Praschak-Rieder N, Willeit M, Wilson AA, Houle S, Meyer JH. Seasonal Variation in Human Brain Serotonin Transporter Binding. Arch Gen Psychiatry. 2008;65(9):1072-1078
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Telefone celulares, radiação eletromagnética e risco de câncer.
Saiu recentemente um artigo na Folha On line, copiando o jornal inglês The Daily Telegraph que uma pesquisa supervisionada pela O.M.S. teria relacionado o uso de celulares com diversos tipos de câncer. A pesquisa teria sido conduzida pela professora Elisabeth Cardis, do Centro de Pesquisa em Epidemiologia Ambiental (Creal) de Barcelona. É preciso notar que o The Daily Telegraph não é um periódico científico mas sim um tablóide. Errou a Folha ao dizer que os dados preliminares foram publicados neste jornal, já que não é um veículo de publicação de resultados mas sim de divulgação de artigos publicados em periódicos científicos.
O artigo original se trata de um editorial e não uma revisão e foi publicado na revista Occupational and Environmental Medicine.
Radiação eletromagnética em alta intensidade gera aquecimento. Esta técnica é, inclusive, utilizada em tratamentos médicos. O efeito termogênico das radiações eletromagnéticas é conhecido e deletério para a saúde, no entanto, a intensidade de radiação para gerar calor é muito - mas muito mesmo - maior que as emitidas por aparelhos telefônicos sem fio, celulares e redes wireless.
Fazendo uma busca na literatura científica, encontrei diversos artigos estudando o assunto. Foram tantos que selecionei algumas revisões, que analisam esses artigos e emitem uma conclusão científica mais completa do estado da arte. Um deles (Hours et al, 2007) é coordenado pela própria Profa. Cardis. Seguem abaixo alguns trecho para que os leitores mesmos tirem as conclusões. Seguem os links para cada artigo:
"Many of the positive studies may well be due to thermal exposures, but a few studies suggest that biological effects can be seen at low levels of exposure. Overall, however, the evidence for low-level genotoxic effects is very weak." Verschaeve et al., 2010.
"In conclusion, no co-genotoxic effect of radiofrequency was found at levels of exposure that did not induce heating." Perrin et al., 2010.
"...there is only weak evidence for a relationship between RFE and any endpoint studied (related to the topics above), thus providing at present no sufficient foundation for establishing RFE as a health hazard" Jauchem, 2008.
"No significant increased risk for glioma, meningioma or neuroma was observed among cell phone users participating in Interphone." Hours et al., 2007.
Antes de criar qualquer tipo de alarde, eu prefiro esperar resultados mais confiáveis.
terça-feira, 26 de abril de 2011
Faz calor no Rio, faz calor em Salvador. E frio?
Caros.
Faz tempo que não posto nada e o motivo é o mesmo pelo qual padece a maioria dos meus leitores - falta total e absoluta de tempo. Por isso, já me sinto desculpado. Aproveitei que uma virose me deixou em casa deitado para sanar uma pequena pendenga que tive com uns amigos. Em visita a Salvador e/ou morando aqui depois de viverem no Rio de Janeiro - como eu mesmo, aliás - me disseram que passavam mais calor aqui do que no Rio. Achei muito estranho pois, além da minha própria experiência, vários outros amigos, parentes e conhecidos me diziam que o calor aqui era menos acachapante do que lá. Bem, como resolver essa questão?
Claro que recorri aos dados disponíveis. Fui direto ao site do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - INPE, onde a base de dados do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos - CPTEC estão disponíveis de maneira organizada e completa. A primeira conclusão que cheguei foi: não estão. O site parece ser funcional mas tive que fazer um cadastro para acessar os dados, a página de dados não reconheceu meu cadastro depois de várias tentativas e depois de muito custo consegui ter acesso aos dados mas não de maneira automatizada. Além disso, a base histórica é extremamente desatualizada e incompleta. Neste ponto, pelo menos o INPE tem muito o que aprender com o IBGE. De qualquer forma, consegui extrair dados históricos de temperaturas mensais máximas e mínimas das duas capitais entre 2006 e 2008. Mas do que isso seria impossível com as restrições apresentadas. Por isso, não pude fazer nenhuma análise estatística mas os resultados que obtive foram representativos da minha experiência e de meus amigos .
O gráfico abaixo mostra as temperaturas máximas registradas em cada mês indicado. Acho que o gráfico é auto-explicativo:

Como sugerido por nossa experiência - e de outros- os verões cariocas são realmente mais quentes. Acrescento que não devem estar incluídas nesses registros as marcas de Bangu, onde relatos diversos já informaram temperaturas de até 46oC. Mas Bangu é um mundo a parte, vamos combinar...
O que ocorre no Rio, diferentemente de Salvador, é que lá há inverno. Os paulistas e gaúchos de plantão podem torcer o nariz mas os 14oC do Rio é frio sim pra nós, ponto. O gráfico abaixo mostra as temperaturas mínimas registradas nas duas cidades durante o mesmo período:
Conforme mostrado, Salvador não tem inverno - pelo menos não faz frio - e isso dá a sensação de que é muito quente. É quente mas menos quente que o Rio. A diferença é que no Rio tem inverno, enquanto em Salvador o inverno é chuva e Sol, chuva e calor no mesmo dia, muitas vezes ao mesmo tempo.
Enquanto isso, ficamos aqui, sem passar tanto calor mas com uma saudade da escapadinha pra Serra das Araras...
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Pizza: integral, antioxidante e em 2 minutos e 10 segundos
A figura abaixo mostra o aumento dos níveis de antioxidantes relacionado ao tempo de fermentação da massa, sendo um tempo longos (48 horas) mais adequados para esta característica.

Mais interessante ainda é o efeito da temperatura de cozimento da pizza. Aumento da temperatura do forno de 204oC para 288oC causa um aumento nos níveis de antioxidantes da massa integral. Embora o autor não tenha testado temperaturas mais altas, parece que quanto mais quente melhor.

Citando o blog do meu amigo Jeff Verasano, especialista no preparo desta iguaria da culinária italiana, a temperatura ideal do forno para preparo de pizza está acima dos 280oC, onde a massa demora entre 5 e 7 minutos para ficar pronta, sendo ideal o preparo a 440oC, onde a pizza leva extraordinários 2 minutos e 10 segundos para ficar neste ponto.

Levando em conta estas informações - científica e gastronômica - revelamos um dos segredos da longevidade mediterrânea. Se acrescentarmos azeite de oliva e vinho à receita, está aí o segredo.
Bom apetite e vida longa!
Referência:
Moore et al., J. Agric. Food Chem. 2009, 57, 832–839
quarta-feira, 28 de julho de 2010
"Pinguçogenética"
O álcool é principalmente metabolizado no fígado por três sistemas. Entre eles, as enzimas álcool desidrogenase (ADH) e aldeído desidrogenase (ALDH) formam o sistema mais eficiente de metabolização de etanol em condições subtóxicas, ou seja, consumo leve a moderado. Este sistema converte o álcool etílico (etanol) em acetato em dois passos executados por estas enzimas hepáticas. São eles:

A produção desses NADHs é uma das principais responsáveis pelo efeito tóxico do etanol, entre eles a hipoglicemia que leva ao coma alcoólico e à esteatose hepática (fígado gordo) que leva à cirrose mas isso será tratado em outra ocasião.
O que quero tratar aqui e da variação genética dessas duas enzimas apresentada em populações humanas. Existem vários subtipos dessas enzimas, o que chamamos de polimorfismo. Genes diferentes produzem enzimas ligeiramente diferentes mas que podem funcionar de maneira sensivelmente distintas. Por exemplo, sete subtipos de ADH são produzidos por humanos, entre elas duas são as principais, ADH1B1 e ADH1B2, assim como a ALDH também é produzida em duas formas, ALDH2.1 e ALDH2.2. Para simplificar, vamos chamar de ADH1 e ADH2 e de ALDH1 e ALDH2, respectivamente. A ADH1 é cerca de 5 vezes mais eficiente que a ADH2, enquanto que a ALDH1 é quase 1000 vezes mais eficiente que a ALDH2. Essas diferenças são mostradas no parâmetro de eficiência enzimática (Vmax/Km) na tabela abaixo:

Diversos artigos mostram que pessoas que produzem os tipos 2 dessas enzimas (ADH2 e ALDH2) tem uma espécie de proteção contra o desenvolvimento de alcoolismo desde que a chances destas pessoas se tornarem alcoólatras é significantemente menor. Isto pode ser verificado na tabela abaixo que mostra a razão de chances (odds ratio) do desenvolvimento de alcoolismo em pessoas que possuem as diferentes combinações dos genes de ADH1 e 2, e ALDH1 e 2.

Reparem que o grupo de referência é aquele que possui os dois alelos (genes) ADH1 e ALDH1. Este grupo possui o odds ratio de 1 comparado com os outros. O grupo com a menor chance de alcoolismo é aquele que possui os dois alelos ADH2 e ALDH2 (odds ratio = 0,01). Conforme os alelos dos dois genes do tipo 2 aparecem, aumentam as chances de alcoolismo, sendo que 3 do tipo 1 e um do tipo 2 (ADH1B1/1 e ALDH2.1/2) é o mais alto (0,40).
Resumindo, quanto mais eficiente o sistema de metabolização de etanol, maior a chance de alcoolismo. O autor sugere que o acúmulo de acetaldeído, que é tóxico, pode ser a chave deste efeito já que as combinações onde a ADH é muito eficiente (produz muito acetaldeído) e a ALDH e pouco eficiente (consome pouco acetaldeído) não foram encontradas na população de alcoólatras.
De qualquer forma, parece que quanto mais mal o álcool fizer pro sujeito, menos a chance dele virar alcoólatra. Logo, se você acorda bem depois daquela noitada regada a muita cerveja, uisque, vodca, tequila e cachaça, preocupe-se, você pode ser do grupo 1/1. Ou seja, geneticamente determinado a ser um pinguço.
Referências:
Santos, et al. Alcohol 14, 1997, 3:205-207;
Chen, et al. Chemico-Biological Interactions, 2009, 178:2–7.
terça-feira, 18 de maio de 2010
Trilogia "Desenvolvimento humano versus crescimento econômico".
Por falta de tempo nas últimas semanas, venho divulgar a trilogia das últimas postagens como sugestão de leitura em conjunto, para quem ainda não o fez:
1. Desenvolvimento humano versus crescimento econômico: os mesmos erros novamente.
2. Desenvolvimento humano versus crescimento econômico [PARTE 2]: lições para se aprender com os BRICs.
3. Desenvolvimento humano versus crescimento econômico [PARTE 3]: relações com os royalties do pré-sal.
domingo, 25 de abril de 2010
Desenvolvimento humano versus crescimento econômico [PARTE 3]: relações com os royalties do pré-sal.
Alguns estados da federação possuem IDH acima deste patamar: Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul. O gráfico abaixo mostra a relação do PIB per capita com o IFDM (Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal). O IFDM é um índice baseado no IDH só que mais adaptado à realidade dos municípios brasileiros.

Os estados com IDH - consequentemente IFDM - mais alto, a corrente DH-CE está mais expressiva, enquanto que nos estado mais pobres, a corrente CE-DH ainda é mais importante. Desta forma, os investimentos em DH concentrado nos estados mais pobres da federação se faz necessário para elevar a média nacional acima dos 0,87, comentado anteriormente.
Pois bem, a desigualdade social é um dos fatores que afetam indiretamente o IDH do país. Dificilmente o Brasil vai subir na escala de desenvolvimento mundial, alavancado pelas riquezas de Sul e Sudeste, enquanto Norte e Nordeste permanecerem pouco desenvolvidos.
Recentemente, uma discussão em relação ao destino dos royalties pagos pela exploração do petróleo do pré-sal. Os estados produtores, principalmente Rio de Janeiro, reivindicam estes recursos. A exploração do petróleo do pré-sal pode ser uma das principais fontes de riqueza do país nas próximas décadas. Não tenho interesse de levantar discussões políticas sobre o assunto. Mas fica claro que o direcionamento destes recursos para estados que já apresentam um alto PIB - consequentemente alto IDH - pode trazer benefícios imediatos para o estado. No entanto, o desenvolvimento do país depende de um desenvolvimento igualitário entre todos os estados, desde que o IDH do país é composto pela média ponderada dos mesmos. Ou seja, em um primeiro momento, os estados produtores podem se beneficiar dos royalties do pré-sal. No entanto, a médio e longo prazos, o desenvolvimento desigual da nação acabará por atravancar o desenvolvimento de todos os estados, inclusive os produtores de petróleo. Fica a discussão para que possamos olhar a situação de uma ótica mais de longo prazo.
terça-feira, 20 de abril de 2010
Desenvolvimento humano versus crescimento econômico [PARTE 2]: lições para se aprender com os BRICs.
Baseado nesta ideia, busquei os índices de PIB per capita e IDH de 178 países - desenvolvidos, subdesenvolvidos e em desenvolvimento - e correlacionei estes dois parâmetro. O resultado está na gráfico abaixo:

Correlação entre PIB per capita e IDH em 178 países. Fonte: NatioMaster.
Reparem que em países pobres, pequenas variações do PIB per capita causam grande aumento do IDH. Isso porque, nesta faixa de investimento, a corrente CE-DH é muito expressiva. Esse fato se mostra graficamente pela grande inclinação da curva de tendência em valores menores de PIB e IDH. Na medida que o país se desenvolve, a correlação PIB x IDH chega em um ponto de inflexão, onde a influência das correntes CE-DH e DH-CE se equilibram. Após este ponto de inflexão, pequenos aumentos de IDH refletem grande aumento do PIB per capita, demonstrando a força da corrente DH-CE. Neste ponto, o país colhe os resultados dos investimentos em DH realizados, pois a população culta e educada força, com sua produtividade, inventividade e criatividade o crescimento econômico baseado no desenvolvimento da ciência, tecnologia e serviços terciários.
Repare que o comportamento médio da correlação PIB x IDH pode ser estimado pelo ajuste dos dados dos países a uma equação logarítmica. Esta linha seria o desenvolvimento "médio" de PIB e IDH concomitantemente e poderíamos inferir que seria o comportamento ideal de crescimento de um país, segundo Ranis e colaboradores (2000). Neste caso, países que se localizam acima da linha estão tendendo a desenvolvimento assimétrico DH, enquanto os abaixo da linha para desenvolvimento assimétrico CE. Nos países acima da linha, o desenvolvimento humano é acentuado para o estágio de crescimento econômico. Enquanto nos países abaixo da linha, o desenvolvimento humano não segue o crescimento econômico do país. Neste países, normalmente há, ainda desigualdades sociais acentuadas e problemas básicos que não permitem o aumento do IDH até patamares médios para países deste nível de riqueza - pelo menos não para toda a população.
O Brasil, como mostrado no gráfico se encontra próximo desta inflexão. Este é um ponto chave do desenvolvimento do país pois os investimentos no DH devem ser intensificado para que se reflita em um aumento do IDH. Intensificados e canalizados para serviços básicos, principalmente à população menos assistida pelas ações de DH do país. É imperativo que o Brasil consiga romper esta inflexão para que seu crescimento seja perene. Se considerarmos o PIB per capita médio de todos os países analisados - cerca de US$ 13.000,00 - para o Brasil ficar entre os mais ricos deve fazer investimento para elevar seu IDH para cerca de 0,87 (linhas tracejadas). Atualmente é 0,813. Segundo a tendência mundial, a partir deste ponto o crescimento econômico é mais fortemente sustentado pelo desenvolvimento humano, como já dito.
Entre os países do chamado BRIC - Brasil, Rússia, China e Índia, o Brasil se encontra em posição privilegiada por ser o único país com democracia plena e consolidada, além de estar bem localizado em termos de PIB per capita. No entanto, se analisarmos o posicionamento do país em relação a linha de tendência média, vamos ver que China e Índia se encontram próximos, e até um pouco acima da linha - denotando um desenvolvimento mais equilibrado entre CE e DH, enquanto o Brasil de encontra abaixo da linha, mostrando que o DH ainda não acompanha na mesma proporção o CE.
Existe no gráfico um grupo de países que desvia claramente da maioria para baixo da curva. Estes países estão marcados com símbolos X - ao contrário da maioria com símbolo circular. Estes países formam o grupo dos 20 maiores produtores de petróleo do mundo em barris per capita ou têm suas economias baseadas na exploração de diamante e/ou ouro. Nesses países - mesmo os desenvolvidos - o IDH não acompanha o crescimento do PIB pois, como se sabe, uma das marcas do petróleo nos países onde há exploração é a desigualdade social. Isso explica o comportamento da correlação da Rússia que, mesmo estando bem abaixo da linha média de correlação da maioria dos países, ainda está acima da curva característica dos países produtores de petróleo, mostrando que o país apresenta DH acima das média dos países do seu bloco, mesmo estando mais abaixo que o Brasil.
Acho que estes dados servem de alerta para que o Brasil não repita o ciclo de desenvolvimento assimétrico das décadas de 60 e 70. Para que isso não ocorra, investimentos em educação primária e secundária, hospitais, creches, segurança pública, saneamento básico, programas de segurança alimentar, etc, devem ser realizados massivamente e urgentemente. Do contrário, que já sabemos onde o "desenvolvimento" vai parar.



